O dólar fechou a última sexta-feira cotado a R$ 5,82, maior valor em quatro meses. A alta acumulada no mês de outubro já é de 3,4%, e no ano a moeda americana sobe 7,8% frente ao real. O movimento preocupa consumidores e empresas por causa do impacto direto no preço de combustíveis, alimentos importados, viagens internacionais e eletrônicos.
A disparada atual tem causas internas e externas, e entender esses fatores ajuda a dimensionar se o movimento é passageiro ou pode se estender pelos próximos meses.
Pressões externas
A principal pressão vem do fortalecimento do dólar globalmente. O índice DXY, que mede o dólar contra uma cesta de moedas de países desenvolvidos, subiu 4,2% no último trimestre e está no maior patamar em dois anos. O motivo é a expectativa de que o Fed, banco central americano, mantenha os juros altos por mais tempo diante da inflação persistente nos Estados Unidos.
Com juros mais altos lá, o capital internacional busca aplicações em dólar e sai de moedas emergentes. O real sofre junto com o peso argentino, o rand sul-africano e a lira turca, todos com desvalorizações acima de 5% no mesmo período.
A tensão geopolítica no Oriente Médio também contribui. O barril do petróleo subiu de US$ 78 para US$ 95 em três semanas, o que normalmente pressiona moedas de países importadores. O Brasil, apesar de ser autossuficiente em petróleo, sente o impacto pelo canal de preços internacionais e pela aversão a risco que acompanha conflitos.
Fatores internos
No Brasil, as projeções fiscais pioraram após a divulgação do relatório bimestral de receitas e despesas em setembro. O governo revisou a meta de resultado primário para 2026 de superávit zero para déficit de 0,3% do PIB, e os cortes anunciados para compensar foram vistos como insuficientes pelo mercado.
Esse quadro fiscal fragilizado reduz o apetite de investidores estrangeiros por ativos brasileiros, apesar da Selic em 14% que, teoricamente, deveria atrair capital. A desconfiança sobre a trajetória da dívida pública pesa mais do que o diferencial de juros.
A proximidade das eleições presidenciais de 2026 também traz volatilidade. O mercado precifica cenários diferentes para 2027, dependendo do resultado, e qualquer sinalização de política econômica mais ou menos ortodoxa movimenta o câmbio.
Impacto no bolso
A alta do dólar demora entre 60 e 90 dias para se refletir plenamente nos preços internos. Combustíveis são os mais rápidos: a Petrobras já ajustou o preço da gasolina para as distribuidoras em 2,8% na última semana, e os postos devem repassar nas próximas duas semanas.
Alimentos industrializados que usam insumos importados (trigo, óleo, embalagens) devem subir entre 3% e 6% até o fim de novembro. Eletrônicos, principalmente celulares e computadores importados, já ajustaram preços no varejo.
Para quem tem viagem internacional marcada, o aumento tem efeito imediato nas conversões. Comprar dólar agora para uso em dezembro pode significar economia relevante caso a cotação siga subindo nas próximas semanas.
Perspectivas até dezembro
A maioria dos analistas projeta que o dólar deve oscilar entre R$ 5,70 e R$ 5,90 nas próximas semanas, sem um movimento direcional claro em qualquer sentido. Uma eventual sinalização de corte da Selic pela Copom em outubro, se percebida como precoce diante do cenário fiscal, pode levar a nova pressão de alta.
Por outro lado, uma declaração mais dura do Fed sobre juros ou uma piora significativa na percepção fiscal brasileira pode levar o dólar para a faixa dos R$ 6,00, patamar que viria acompanhado de resposta do Banco Central via leilões de câmbio ou alteração na política monetária.
Para quem tem dívidas em dólar ou precisa fazer remessas internacionais recorrentes, o cenário é desafiador. Para o investidor pessoa física, a exposição a dólar via BDRs, fundos cambiais ou ações de empresas exportadoras serve como proteção parcial do patrimônio contra essa volatilidade.
