Com a Selic em 14% ao ano, um CDB atrelado a 110% do CDI rende aproximadamente 15,4% ao ano brutos, ou 12,3% líquidos de imposto de renda para aplicações de dois anos. Essa taxa supera com folga a inflação projetada para 2026 (4,8% pelo Focus) e devolve à renda fixa o papel de principal escolha para a maior parte do patrimônio da maioria dos investidores brasileiros.
Diante disso, muitos investidores que entraram em cripto nos últimos anos se perguntam se faz sentido manter a exposição a um ativo volátil quando a renda fixa oferece retornos reais tão robustos. A resposta curta é sim, mas com percentuais pequenos e critérios claros.
Por que não zerar a exposição a cripto
Mesmo com a renda fixa atrativa, zerar a posição em criptomoedas significa abrir mão da descorrelação histórica entre esse ativo e os ativos financeiros tradicionais. Em cenários de forte desvalorização do real (como visto entre 2020 e 2022) ou de perda de confiança nas instituições, o Bitcoin funcionou como hedge para parcela da carteira.
Além disso, o custo de oportunidade de ficar fora pode ser alto. Entre 2023 e 2026, o Bitcoin acumulou valorização superior a 400% em dólar, retorno que nenhuma classe tradicional de renda fixa entregou no mesmo período, mesmo com a Selic alta.
Alocação sugerida por perfil
Para investidores conservadores, a sugestão é manter entre 2% e 5% do patrimônio total em criptomoedas, dividido entre Bitcoin (70%) e Ethereum (30%). O restante vai para Tesouro Direto (Selic e IPCA+), CDBs de bancos médios e fundos DI, buscando prazos entre dois e cinco anos para aproveitar as taxas atuais.
Para investidores moderados, a exposição a cripto pode subir para 8% a 12%, incluindo além de Bitcoin e Ethereum uma pequena posição (2% do total) em três a cinco altcoins com projetos consolidados, como Solana e Chainlink. A renda fixa fica entre 65% e 70%, com fundos imobiliários e ações nacionais compondo o restante.
Para o perfil arrojado, cripto pode chegar a 20% da carteira, com liberdade maior para apostar em projetos de infraestrutura blockchain e DeFi. A renda fixa, mesmo nesse perfil, continua representando entre 40% e 50% da alocação, servindo como colchão de liquidez e proteção.
Como rebalancear
Com cripto em alta e renda fixa oferecendo retornos reais consistentes, o movimento mais inteligente é rebalancear a carteira a cada seis meses. Se o Bitcoin dobrou de preço, a posição em cripto cresceu desproporcionalmente e deve ser reduzida de volta ao percentual original, com o excedente migrando para renda fixa.
Esse disciplina de rebalanceamento garante que o investidor realiza lucro nas altas e aproveita quedas para aumentar posição por preços melhores, sem precisar prever o topo ou o fundo do ciclo. Para quem usa corretoras no Brasil, operar essa troca com eficiência fiscal exige atenção ao limite mensal de R$ 35 mil para isenção de ganho de capital em cripto.
O erro mais comum
O principal erro de investidores iniciantes nesse momento é concentrar toda a renda fixa em pós-fixados atrelados ao CDI. Com a Selic em 14%, a probabilidade de corte nos próximos 12 a 18 meses é alta, e títulos pós-fixados perdem rentabilidade quando a taxa cai.
A alternativa é diversificar entre pós-fixado (para liquidez), prefixado (travando a taxa atual por dois a três anos) e IPCA+ (protegendo o poder de compra em prazos longos). Essa combinação dentro da renda fixa dá resultado melhor do que focar em um único tipo de título, mesmo que o CDI atual pareça irresistível.
