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Educação Financeira

332 milhões de dívidas: por que o brasileiro deve tanto e o que isso significa para a economia

O Brasil acumula 332 milhões de dívidas em 2026, um volume 43% maior do que o registrado em 2016. O número, divulgado pela Serasa no relatório comemorativo de dez anos do Mapa da Inadimplência, revela que o endividamento cresceu mais rápido que a economia, a renda e a população no mesmo período.

São 81,7 milhões de pessoas com ao menos uma dívida em atraso, o que representa aproximadamente 40% da população adulta. A dívida média por consumidor subiu 12,2% em termos reais (descontada a inflação), confirmando que o problema não é apenas de quantidade, mas de profundidade.

Quem deve mais

O perfil do endividamento brasileiro é marcado pela concentração nas faixas de renda mais baixas. Quase metade dos inadimplentes (48%) ganha até um salário mínimo, e outros 30% recebem até dois salários mínimos. Para essas famílias, a margem entre receita e despesa é tão estreita que qualquer imprevisto, uma conta médica, um conserto no carro, a perda do emprego, se transforma em dívida.

As mulheres ultrapassaram os homens em número de inadimplentes, chegando a 40,4 milhões em 2026 contra 41,3 milhões de homens. A diferença diminuiu significativamente em relação a 2016, quando os homens eram maioria por ampla margem. Fatores como a chefia familiar feminina crescente e salários médios mais baixos para mulheres ajudam a explicar a tendência.

A faixa etária acima de 60 anos foi a que registrou o maior crescimento proporcional de inadimplência na última década. O uso crescente de crédito consignado por aposentados e pensionistas, combinado com o papel de "fiador informal" que muitos idosos assumem ao emprestar o nome para parentes, inflou a dívida dessa faixa.

Por que o endividamento cresceu tanto

A expansão do crédito digital democratizou o acesso a empréstimos e cartões, mas nem sempre acompanhada de educação financeira. Fintechs e bancos digitais reduziram as barreiras de entrada, o que é positivo para a inclusão financeira, mas criou um contingente de novos tomadores de crédito sem experiência para avaliar o custo real das dívidas.

A pandemia de 2020-2021 foi um acelerador. Milhões de pessoas recorreram ao crédito para compensar a perda de renda, e parte dessas dívidas nunca foi quitada. Os programas de renegociação (como o Desenrola, encerrado em 2024) aliviaram temporariamente, mas a reincidência mostra que o problema estrutural persiste.

Os juros brasileiros, historicamente entre os mais altos do mundo, tornam qualquer dívida mais cara. Com a Selic a 14%, o custo do crédito pessoal varia de 3% a 8% ao mês, e o rotativo do cartão ultrapassa 400% ao ano. Em um ambiente assim, dívidas crescem mais rápido do que a capacidade de pagamento.

Impacto na economia

O endividamento elevado funciona como um freio ao crescimento econômico. Famílias comprometidas com o pagamento de dívidas reduzem o consumo de bens e serviços, o que afeta o faturamento das empresas, que por sua vez contratam menos e investem menos.

O consumo das famílias, que representa cerca de 60% do PIB brasileiro, recuou 0,4% no segundo trimestre de 2026. Parte dessa contração se explica pelo endividamento: quando uma parcela significativa da renda vai para juros e amortizações, sobra menos para compras no comércio e contratação de serviços.

O sistema bancário também é afetado. A inadimplência elevada obriga os bancos a aumentar as provisões para devedores duvidosos, o que reduz o lucro e encarece o crédito para todos os tomadores, inclusive os bons pagadores.

Caminhos para reduzir o endividamento

No nível individual, as estratégias de renegociação e reorganização financeira funcionam. Trocar dívidas caras por baratas, priorizar o pagamento de juros altos e construir uma reserva mínima de emergência são passos que quebram o ciclo.

No nível sistêmico, o debate sobre o teto de juros do rotativo, a regulação das fintechs e a inclusão de educação financeira no currículo escolar são caminhos que podem reduzir o problema a médio prazo. A queda gradual da Selic nos próximos anos, se sustentada, deve aliviar o custo do crédito e facilitar a recuperação dos inadimplentes.

O dado de reincidência (42% dos inadimplentes já estavam nessa condição há dez anos) mostra que renegociar a dívida sem mudar o padrão de consumo e de uso do crédito é insuficiente. A solução passa por acesso a crédito mais barato, educação financeira efetiva e uma economia que gere renda suficiente para que as famílias não dependam de empréstimos para cobrir despesas básicas.

Aviso: este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de produto. Rentabilidade passada não garante resultados futuros e condições de crédito variam conforme análise de cada instituição. Antes de decidir, avalie seu perfil e consulte um profissional habilitado.
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Rafael Oliveira

Jornalista e Analista de Mercado Cripto

Jornalista especializado em tecnologia blockchain e mercado cripto. Acompanha diariamente as tendências do setor para traduzir conceitos complexos em linguagem acessível ao público brasileiro.

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