A economia brasileira cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, segundo dados do IBGE. O número superou a expectativa de parte dos analistas, mas representou menos da metade do avanço de 1,1% registrado nos três primeiros meses do ano. A desaceleração confirma o que o mercado já vinha sinalizando: o ritmo de crescimento do Brasil está perdendo força.
O Boletim Focus projeta um PIB de 1,93% para o ano, acima dos 1,92% estimados na semana anterior. Para 2027, a expectativa é de crescimento menor, na casa de 1,5%. A combinação de juros elevados, incerteza eleitoral e menor impulso fiscal explica a perspectiva de moderação.
Setores com desempenho desigual
A agropecuária foi o destaque positivo do trimestre, com alta de 2,8%. A safra recorde de grãos e o bom desempenho das exportações de carne e celulose sustentaram o setor, que se beneficiou do câmbio favorável e da demanda chinesa.
A indústria cresceu 1,0%, puxada pela produção de veículos e pela construção civil. O setor de serviços, que representa cerca de 70% do PIB, avançou apenas 0,5%, refletindo o arrefecimento do consumo.
O dado mais preocupante veio do consumo das famílias, que recuou 0,4% no trimestre. É a primeira contração desde o terceiro trimestre de 2024. A queda reflete o efeito acumulado dos juros altos sobre o crédito, o endividamento elevado (81,7 milhões de inadimplentes) e a inflação de alimentos que corroeu o poder de compra das faixas de renda mais baixas.
Por que a economia desacelerou
O principal freio ao crescimento em 2026 é a política monetária restritiva. A Selic a 14% encarece o crédito para empresas e consumidores, reduzindo o investimento produtivo e o consumo de bens duráveis. Financiamentos imobiliários, compras de veículos e empréstimos pessoais ficam mais caros, e o efeito aparece nos dados de atividade com defasagem de dois a três trimestres.
A retirada gradual de estímulos fiscais implementados nos anos anteriores também contribui. Programas de transferência de renda mantiveram seus valores, mas sem reajustes reais significativos, o que significa que sua capacidade de impulsionar o consumo diminuiu.
No cenário externo, o crescimento mais lento da China e os juros elevados nos Estados Unidos limitam o fluxo de capital para mercados emergentes. Menos investimento estrangeiro significa menos financiamento para projetos de infraestrutura e expansão empresarial.
O que o PIB significa para o dia a dia
Um PIB mais fraco não é apenas um número abstrato. Quando a economia desacelera, o mercado de trabalho sente o impacto com defasagem. A geração de vagas formais tende a diminuir nos próximos trimestres, e empresas passam a ser mais cautelosas na hora de contratar.
Para quem está empregado, negociações salariais ficam mais difíceis em um ambiente de crescimento baixo. A inflação de 5% ao ano corrói ganhos nominais modestos, e o poder de compra real pode encolher mesmo sem redução de salário.
Para empreendedores e pequenos negócios, o consumo das famílias em queda significa menos clientes e receita menor. Setores como varejo, alimentação fora de casa e serviços pessoais são os primeiros a sentir.
Perspectivas para o segundo semestre
O terceiro trimestre deve apresentar crescimento modesto, sustentado pela agropecuária e pelas exportações. A expectativa dos economistas do Banco Safra é de PIB de 1,9% no acumulado do ano, o que exigiria aceleração na segunda metade.
Os cortes na Selic, que começaram em março e devem levar a taxa para 13,75% até dezembro, ainda não tiveram tempo de irrigar a economia real. O efeito dos juros mais baixos sobre crédito e investimento costuma aparecer com seis a nove meses de defasagem, o que significa que o benefício completo só será percebido em 2027.
As eleições de outubro adicionam uma camada de incerteza. Dependendo do resultado e das sinalizações fiscais do próximo governo, o mercado pode revisar para cima ou para baixo as projeções de crescimento para 2027. Por enquanto, o cenário base é de uma economia que cresce pouco, mas não entra em recessão.
