O Brasil atingiu a marca de 81,7 milhões de pessoas inadimplentes em 2026, um aumento de 38% em relação a 2016. O volume total de dívidas chegou a 332 milhões de registros, 43% a mais do que uma década atrás. Os números, compilados pela Serasa no relatório comemorativo de dez anos do Mapa da Inadimplência, revelam que o problema se aprofundou mesmo com as políticas de renegociação dos últimos anos.
A dívida média por consumidor cresceu 12,2% acima da inflação no período. Ou seja, os brasileiros não estão apenas devendo mais, estão devendo proporcionalmente mais em relação ao que ganham.
Quem são os inadimplentes
O perfil da inadimplência brasileira é desigual. Quase metade dos devedores (48%) recebe até um salário mínimo. Outros 30% ganham até dois salários mínimos. Isso significa que 78% dos inadimplentes estão nas faixas de renda mais baixas, onde qualquer imprevisto financeiro pode transformar uma conta em atraso em uma bola de neve.
As mulheres passaram a ser maioria entre os inadimplentes, somando 40,4 milhões em 2026 contra 27,7 milhões em 2016. O envelhecimento da dívida também aparece nos dados: a inadimplência entre pessoas com mais de 60 anos cresceu em ritmo acelerado na última década.
Um dado particularmente preocupante é a reincidência. 42% dos brasileiros inadimplentes hoje já estavam nessa condição dez anos atrás, o que equivale a cerca de 34 milhões de pessoas que não conseguiram romper o ciclo de endividamento.
As principais armadilhas
O cartão de crédito continua sendo o principal vetor de endividamento. Os juros do rotativo, que chegam a 400% ao ano em algumas instituições, transformam uma fatura não paga em uma dívida que cresce exponencialmente.
O crédito pessoal e os empréstimos digitais oferecidos por fintechs também contribuem. A facilidade de contratação, muitas vezes com poucos cliques no celular, reduz a percepção de risco do tomador. Quando os juros de 5% a 10% ao mês se acumulam, o valor devido rapidamente supera a capacidade de pagamento.
O parcelamento excessivo é outra armadilha. Compras parceladas em 12 vezes sem juros parecem inofensivas individualmente, mas quando se acumulam, comprometem uma fatia cada vez maior da renda futura.
Como renegociar dívidas
O primeiro passo é mapear todas as dívidas: valores, credores, taxas de juros e datas de vencimento. Com esse diagnóstico, é possível priorizar o que pagar primeiro. A recomendação dos educadores financeiros é começar pelas dívidas com juros mais altos, geralmente cartão de crédito e cheque especial.
Os feirões de renegociação da Serasa, que acontecem periodicamente ao longo do ano, oferecem descontos que podem chegar a 90% em dívidas atrasadas. Bancos e empresas de telefonia costumam aceitar renegociações com condições melhores do que as oferecidas no dia a dia.
Trocar uma dívida cara por uma mais barata é outra estratégia eficaz. Um empréstimo consignado com desconto em folha cobra juros de 1,5% a 2,5% ao mês, muito abaixo dos 10% a 15% do crédito rotativo. Para quem tem acesso, a portabilidade de dívidas permite transferir o saldo devedor para uma instituição com condições melhores.
Reorganizando as finanças
Sair da inadimplência sem mudar os hábitos que levaram até ela é como tratar o sintoma sem curar a doença. A reorganização financeira começa com um orçamento realista, onde receitas e despesas estejam mapeadas.
A regra 50-30-20 (50% para necessidades, 30% para desejos, 20% para poupança e pagamento de dívidas) é um ponto de partida, mas para quem está endividado, a proporção pode precisar de ajuste temporário, com mais recursos direcionados ao pagamento das dívidas.
Montar uma reserva de emergência, mesmo que pequena (equivalente a um mês de despesas fixas como primeiro objetivo), evita que novos imprevistos gerem novas dívidas. Com a Selic a 14%, uma aplicação simples no Tesouro Selic ou em um CDB com liquidez diária já rende mais de 1% ao mês.
O caminho para sair do endividamento não é rápido, mas é possível. Renegociar, priorizar as dívidas mais caras e construir uma reserva mínima são os três passos que, combinados, quebram o ciclo de reincidência que aprisiona 34 milhões de brasileiros há mais de uma década.
