Setembro começou sem um líder isolado entre as carteiras recomendadas de ações. Segundo levantamento com dez corretoras e casas de análise, quatro papéis empataram na liderança com sete indicações cada: Embraer (EMBR3), Itaú Unibanco (ITUB4), Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3). É o maior empate do ano e representa quase o dobro da concentração observada em julho.
Gerdau (GGBR4) e Rede D'Or (RDOR3) completam a lista das mais citadas, refletindo uma preferência por empresas com geração de caixa robusta e menor sensibilidade ao ciclo eleitoral.
Por que essas quatro ações
A convergência dos analistas para Embraer, Itaú, Petrobras e Vale não é coincidência. As quatro empresas compartilham características que ganham importância em momentos de incerteza: receita diversificada (parte em dólar), margens operacionais sólidas e histórico de distribuição de dividendos.
A Embraer vive um dos melhores momentos da sua história. A carteira de pedidos da divisão de aviação comercial atingiu recordes, e a empresa tem capturado market share no segmento de jatos regionais. As ações acumulam valorização expressiva em 2026 e os analistas enxergam espaço para mais, sustentado pela entrega de resultados acima do esperado.
O Itaú se beneficia do cenário de juros altos, que amplia a margem financeira dos bancos. A inadimplência, embora ainda elevada no sistema como um todo, está controlada na carteira do banco, que priorizou clientes de menor risco nos últimos trimestres. A expectativa de dividendos consistentes atrai investidores que buscam renda recorrente.
Petrobras combina geração de caixa elevada com preços do petróleo sustentados acima de US$ 90 por barril. A política de dividendos, apesar das incertezas sobre possíveis mudanças em um novo ciclo político, continua sendo um dos principais atrativos do papel. O desconto em relação às petroleiras internacionais persiste.
Vale reflete a demanda global por minério de ferro, que permanece aquecida apesar da desaceleração chinesa. A empresa reduziu seu endividamento nos últimos anos e mantém programa de recompra de ações que dá suporte ao preço do papel.
Ibovespa em agosto: recuperação parcial após susto
O principal índice da bolsa brasileira encerrou agosto com queda de 0,33%, um resultado que esconde a montanha-russa vivida ao longo do mês. Nas duas primeiras semanas, o Ibovespa acumulou perda de 6,5% em onze pregões consecutivos de queda, a maior sequência negativa desde 2021.
A recuperação na segunda quinzena devolveu praticamente toda a perda, mas expôs a fragilidade do mercado diante de choques externos. A combinação de juros dos Treasuries americanos em alta, petróleo pressionado e incertezas domésticas criou o ambiente perfeito para a realização de lucros que vinha sendo adiada.
Setores no radar
O setor financeiro concentra o maior número de recomendações neste mês. Bancos e seguradoras se beneficiam diretamente dos juros elevados e tendem a sofrer menos em cenários de volatilidade política.
Commodities (mineração, petróleo e siderurgia) aparecem como segunda preferência, sustentadas pela receita em dólar que funciona como proteção natural contra a desvalorização do real.
Setores mais sensíveis ao ciclo doméstico, como varejo, construção civil e empresas de tecnologia local, receberam menos recomendações. A proximidade das eleições e a incerteza sobre a trajetória fiscal tornam esses papéis mais arriscados no curto prazo.
O que considerar antes de montar a carteira
Carteiras recomendadas são um ponto de partida, não uma receita pronta. Cada investidor tem um perfil de risco, um horizonte de tempo e objetivos diferentes. Comprar todas as ações da lista sem avaliar se elas se encaixam na sua estratégia pode gerar uma carteira desbalanceada.
Para quem está começando na renda variável, concentrar em poucas ações de empresas consolidadas (as chamadas blue chips) reduz o risco de perdas significativas. Diversificar entre setores diferentes protege contra eventos que afetam uma indústria específica.
O cenário para setembro combina oportunidades e riscos. A Super Quarta (Copom e Fed no dia 16), as pesquisas eleitorais e os resultados corporativos do segundo trimestre são os três fatores que devem ditar o humor do mercado. Quem opera com disciplina e controle de risco tende a navegar esse período melhor do que quem tenta adivinhar o próximo movimento.
