O Comitê de Política Monetária do Banco Central se reúne nos dias 15 e 16 de setembro para decidir o rumo da taxa básica de juros. Será a sexta reunião do ano e, segundo o Boletim Focus publicado nesta segunda-feira (8), a expectativa predominante no mercado é de mais um corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic de 14% para 13,75% ao ano.
Se confirmado, será o quinto corte consecutivo nesse ritmo. O ciclo de redução começou em março, quando a taxa estava em 15,25%, e desde então o Banco Central vem calibrando a queda de forma gradual, sem dar sinais de aceleração.
O que o Boletim Focus mostra
A edição mais recente do Focus, divulgada pelo Banco Central em 8 de setembro, trouxe ajustes pontuais nas projeções do mercado. A estimativa para a inflação medida pelo IPCA recuou de 5,01% para 5,00% em 2026. Para 2027, a projeção subiu marginalmente, de 4,28% para 4,29%.
O PIB brasileiro deve crescer 1,93% neste ano, levemente acima dos 1,92% projetados na semana anterior. Para 2027, a estimativa permanece em 1,50%. O dólar, segundo o mercado, deve encerrar 2026 cotado a R$ 5,20.
O dado mais relevante para quem acompanha investimentos é a trajetória esperada para a Selic nos próximos anos: 13,75% ao final de 2026, 12,00% em 2027, 10,50% em 2028 e 10,00% em 2029. Essa curva de queda já começou a influenciar o preço de ativos de renda fixa e as estratégias das corretoras.
Por que a reunião de setembro importa mais do que parece
O Copom não decide sozinho nesta semana. No mesmo dia 16 de setembro, o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, também anuncia sua decisão de juros. O mercado americano opera com expectativa de manutenção da taxa básica, mas qualquer sinalização diferente pode provocar volatilidade no câmbio brasileiro e afetar a decisão do Copom.
Outro fator que passou a pesar nas projeções é o cenário eleitoral. Com a disputa presidencial de outubro se tornando mais competitiva, o mercado deixou de precificar um único resultado e começou a trabalhar com cenários múltiplos, o que aumenta a volatilidade dos ativos de risco.
Renda fixa segue como protagonista
Com a Selic ainda em 14%, os investimentos em renda fixa continuam entregando retornos expressivos. Um CDB que paga 100% do CDI rende cerca de 1,09% ao mês líquido de impostos para aplicações acima de dois anos. O Tesouro Selic segue como opção conservadora com liquidez diária, e títulos prefixados longos começam a atrair atenção de quem acredita na queda sustentada dos juros.
Quem aplica em títulos atrelados ao IPCA (Tesouro IPCA+) encontra taxas reais acima de 6% ao ano em vértices mais longos, um patamar que historicamente se mostra atrativo. O risco, nesse caso, está na marcação a mercado: se os juros subirem ao invés de cair, o valor do título pode recuar no curto prazo.
Bolsa: Embraer, Itaú, Petrobras e Vale lideram recomendações
Setembro começou com uma dispersão atípica nas carteiras recomendadas. Segundo levantamento da InfoMoney com dez corretoras, quatro ações empataram na liderança com sete recomendações cada: Embraer (EMBR3), Itaú Unibanco (ITUB4), Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3). O grupo de maior adesão praticamente dobrou em relação a julho, sinal de que as corretoras estão convergindo para nomes defensivos.
Gerdau e Rede D'Or também apareceram entre as mais citadas. O perfil das recomendações privilegia empresas com geração de caixa consistente e exposição a setores menos sensíveis ao ciclo eleitoral.
O Ibovespa encerrou agosto com queda de 0,33%, após uma sequência de onze pregões negativos que levou o índice a acumular perda de 6,5% na primeira metade do mês. A recuperação na segunda quinzena devolveu quase tudo, mas deixou claro que a volatilidade deve continuar.
O que observar nas próximas semanas
Três eventos concentram as atenções do mercado até o final de setembro:
Decisão do Copom (16/09) – o comunicado importa tanto quanto o número. Se o Banco Central sinalizar que pode acelerar o ritmo de corte para 0,50 ponto nas próximas reuniões, ativos prefixados devem se valorizar. Se mantiver o tom de cautela, a curva de juros pode se ajustar para cima.
Decisão do Fed (16/09) – juros americanos mais altos por mais tempo pressionam o dólar e limitam o espaço do Copom para cortar a Selic. Uma surpresa dovish (mais branda) abriria espaço para o real se fortalecer.
Pesquisas eleitorais – a corrida presidencial ganhou competitividade nas últimas semanas. Setores como estatais (Petrobras, Banco do Brasil) e utilities tendem a oscilar conforme as pesquisas, criando oportunidades e riscos para quem opera renda variável.
Na prática, o que fazer
Para quem tem perfil conservador, manter a maior parte da carteira em renda fixa pós-fixada (Tesouro Selic, CDBs de bancos sólidos) continua fazendo sentido. A remuneração é alta e o risco é baixo.
Investidores com horizonte mais longo podem considerar títulos prefixados e IPCA+ com vencimentos a partir de 2030, travando taxas que dificilmente se manterão nesses patamares quando a Selic estiver abaixo de 12%.
Na renda variável, a seletividade é o caminho. As quatro ações que lideram as recomendações (Embraer, Itaú, Petrobras e Vale) têm em comum a geração de caixa robusta e a capacidade de navegar períodos de incerteza política. Entrar no mercado com exposição excessiva antes de uma eleição, por outro lado, é uma aposta que nem todo perfil de investidor deveria fazer.
O cenário geral aponta para uma segunda metade de 2026 com juros em queda gradual, inflação cedendo lentamente e um mercado acionário que depende mais de fatores políticos do que econômicos para definir sua direção. Quem se posicionar com disciplina e diversificação tende a colher os frutos desse ciclo.
